Achamos que desde sua primeira obra, Doença mental e Psicologia( 1958 ), Michel Foucault nos coloca, já na introdução, na perspectiva genealógica. Diz ele: “Gostaria de mostrar que a raiz da patologia mental não deve ser procurada em uma 'metapatologia' qualquer mas numa certa relação, historicamente situada(grifo nosso), entre o homem e o homem louco e o homem verdadeiro.”[1] Na analítica genealógica problematizar adquire um sentido novo, diferente do da analítica filosófica. Segundo Foucault, problematizar “é o conjunto das práticas discursivas ou não discursivas que faz alguma coisa entrar no jogo do verdadeiro e do falso e a constitui como objeto para o pensamento (seja sob a forma de reflexão moral, do conhecimento científico, da análise política, etc).”[2] Ou ainda, “(...) são os efeitos de poder próprios a um discurso considerado científico que a genealogia deve combater...A reativação dos saberes locais - menores, diria talvez Deleuze - contra a hierarquização científica do conhecimento e seus efeitos intrínsecos de poder, eis o projeto destas genealogias desordenadas e fragmentárias.”[3] O genealogista busca a proveniência das coisas existentes, mostra que seu começo, sua constituição, se fez a partir de um estado de dispersão, como acontecimento de um encontro de forças. Ao olhar para o passado o que se encontra é a dispersão/multiplicidade empirista, é a pura exterioridade dos elementos em embate, antes de constituírem-se em órgãos, interioridades subjetivas ou exterioridades objetivas. Foucault, num texto de 1972, intitulado Nietzsche, a Genealogia e a história, escreve: “A pesquisa da proveniência não funda, muito pelo contrário: ela agita o que se percebia imóvel, ela fragmenta o que se pensava unido; ela mostra a heterogeneidade do que se imaginava em conformidade consigo mesmo. Que convicção lhe resistiria? Mais ainda, que saber?” [4] Dois fatores são fundamentais ao genealogista. Primeiramente, o genealogista incorpora o tempo nas coisas. A incorporação do tempo pode ser realizada de dois modos diferentes. O primeiro constitui a perspectiva evolutiva e faz com que o passado promova o presente e o torne possível. O segundo, genealógico, faz com que o presente se destaque do passado, conferindo-lhe um sentido e tornando-o inteligível. Em segundo lugar, ele afirma que a emergência de algo é um efeito, um acontecimento, proveniente de um campo de forças. Assim, por exemplo, se as psicologias nos mostram as formas de aparecimento dos distúrbios mentais, só o genealogista pode nos mostrar as condições do seu surgimento. Em Doença mental..., Foucault nos diz que nem a evolução orgânica, nem a história psicológica ou a situação do homem no mundo, cara aos fenomenólogos, revelam estas condições. “Sem dúvida, é nelas que a doença se manifesta, é nelas que se revelam suas modalidades, sua formas de expressão, seus estilos. Mas é noutra parte que o desvio patológico tem, como tal, suas raízes.”[5] Assim, a patologia mental só encontra seu sentido no interior de uma dada cultura. "A doença só tem realidade e valor de doença no interior de uma cultura que a reconhece como tal."[6] Um exemplo claro do adestramento do homem para transformar os corpos em força ativa é o que mostra Foucault com respeito a moral grega. Diz ele que “na moral antiga, o domínio de si só é um problema para o indivíduo que deve ser senhor dele e senhor dos outros e não para o que deve obedecer aos outros."[7] Já a moral cristã é uma moral feita para todos aqueles que devem obedecer, e é neste sentido que ela é uma moral do escravo, do homem reativo, segundo Nietzsche. O que caracteriza a atualidade é a minimilização dos contatos de fazeres, isto é, os corpos se tornaram demasiados discursivos. Entendemos que Foucault mudou o estatuto dos discursos exatamente por isso. Ele fez com que os discursos deixassem de significar, o que demandavam uma hermenêutica eterna, para adquirir uma potência pragmática. Ele fez com que o discurso deixasse de se remeter para uma interioridade significativa para se posicionarem numa pura exterioridade, um dado entre outros. Esse dado hoje, ou seja, o discurso, está adquirindo funções muito interessantes. A principal delas é o de ser vazio. Os discursos, cada vez mais perdem sua importância enquanto veículo de conhecimento.
No entanto, a exterioridade do discurso pode levar também a reapropriações, conforme a força que dela se apodera. Os reativos vão tomar a linguagem para adquirir poder ou eliminar poderes: brigas no interior das sociedades oficiais dos saberes. Os ativos, irão se apoderar dela para criar, inventar novas formas de vida. Se tudo é exterior, melhor falar de fora. Se alguém acha algo estranho, essa estranheza é apenas um embate da sua memória, já formalizada, tornada hábito, com o que advém.
[1]Michel Foucault, Doença mental e psicologia. p. 8
[2] Michel Foucault, O cuidado com a verdade, entrevista com François Ewald, Le Magazin, in Dossier Michel Foucault, Rio de Janeiro, Ed. Taurus, 1984.
[3] Foucault, Michel - Microfísica do poder. Trad. Roberto Machado. Rio de janeiro, Ed. Graal, 1979. pp. 171/2
[4]Idem, Nietzsche, a gnealogia e a história; in Microfísica do poder. p. 21
[5]Idem, Doença mental .. p. 71
[6]Idem, Ibdem, p. 71
[7] Idem, ibdem, p.80
sábado, 4 de outubro de 2008
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