sábado, 4 de outubro de 2008
PONDO SOBRE O QUE É UM PROBLEMA E A CRÍTICA
Deleuze já nos disse: diante de um pensador podemos ter duas atitudes críticas. A primeira diz: "as coisas não são assim. São assim." É a crítica das soluções. Ela parte do que diz o filósofo e confunde o dito como se "fosse o que ele faz e quer" (p.117) Esta crítica se coloca nas intenções do filósofo. A segunda crítica se coloca na questão do filósofo, e "criticar a questão significa mostrar em que condições ela é possível e se está bem colocada, quer dizer, como as coisas seriam o que são se não fosse esta a questão."(p.117) "Neste caso não se trata de saber se as coisas são assim ou que não o são; trata-se de saber se é ou não boa, se é rigorosa ou não, é o problema que as fazem assim." Hume, por exemplo, coloca a questão do sujeito e o situa nos seguintes termos: o sujeito se constitui no dado. Apresenta as condições de possibilidade, a crítica da questão, desta forma: as relações são exteriores aos termos. O atomismo e o associacionismo são consequências dessa questão. Se se quer objetar é necessário objetar a questão e mais nada. A questão do estruturalismo é: o sujeito se constitui na estrutura. Essa estrutura é abstrata, impõe uma forma, mas não os conteúdos. Os conteúdos são impostos pelas circunstâncias de vida. A estrutura , apesar de subtendida, se estruturaliza em cada indivíduo. É necessário que em cada indivíduo a estrutura se realize. É esta realização da estrutura que cria os diversos sintomas, as diversas personalidades. A estrutura não elimina o novo, a invenção. Ela apenas elimina a desordem no sujeito, isto é, a impossibilidade de se viver em sociedade sem um mínimo de ordem. O mínimo da ordem é a ordem triádica. Dai o Édipo revisitado em Lacan. Numa visão fenomenológica supõem-se que haja uma experiência da loucura e que o historiador a revelaria. Parte-se de uma experiência para revelar outras experiências. Naturalizaríamos a loucura. Parte-se do objeto presente. Toma-se partido do louco e não dos cuidadores e sabedores da loucura. Ou melhor, os cuidadores da loucura se identificam com estes, e vê a loucura como uma possibilidade humana. Substitui-se a natureza da razão que conhece, que quer conhecer, pela natureza da loucura. Substitui-se a explicação pela compreensão. Deste modo, naturalizam a loucura. O fenomenólogo estabelece uma natureza humana. Agora, se se parte do pensamento, o que se tem é que a loucura é uma experiência do pensamento, não no sentido que há uma loucura no pensamento ou que o pensamento pode se tornar louco. Mas que a loucura é simplesmente algo pensada. Daí Deleuze submeter a experiência da loucura a experiência do pensamento. É o pensamento que pensa a loucura. Não fosse isso naturalizaríamos não mais a loucura mas o próprio pensamento. Sabemos que o pensamento é um acontecimento, um devir. Há uma espécie de ciclo vicioso, de eterno retorno, dessas duas pontas: pensamento como natureza naturalizada que pensa o mundo, e o mundo, no qual e para o qual o pensamento emerge. O mais fluido e o mais duro se encontram. O finito e o infinito. O pensamento e as coisas. Corremos o risco de ser pretensioso; de extrapolarmos os limites do senso comum. E quando se trata do pensamento, também neste temos nossos bons sensos. Quando lemos os filósofos, o normal é lê-los do exterior. Comentamos seus achados, suas chegadas. No entanto, é possível perguntar como ele chegou a elaborar suas idéias. Isto é, como ele elaborou seu pensamento. Nosso desafio hoje é trilhar esse duplo movimento: primeiro, o trabalho acadêmico se pauta pela exterioridade. Falamos e escrevemos sobre os outros. Por outro lado, o trabalho de pensamento se faz no proximal, a partir de si. É essa situação paradoxal que se coloca neste momento. Qual momento? Não me pergunte. O homem, no entanto, pode ser chupado por muitas forças. O prazer, por exemplo, (biologia) ou então a autoridade, no sentido do mandar/obedecer (poder, no qual a economia é apenas uma parte); ou ainda ser chupado para o significado, para o entendimento (a linguagem escrita e o conhecimento). Essas forças, não podemos menosprezá-las, são tão fortes que muitas vezes alguns pensadores a transformaram e transformam em princípios explicativos da natureza humana. Podemos dizer que todos os princípios estipulados por alguém, este o sentiu fortemente. Assim, em Freud, a sexualidade. Ele a viveu de maneira aterradora. O prazer é um desafio, uma natureza desafiante, e não um solo explicativo para o pensamento. A sexualidade é uma força que conduz o corpo a fechar-se, auto-erotismo, excluindo ou usando o outro. Foi isso que Freud percebeu?. Daí ele o ter colocado em oposição ao principio de realidade, este sendo o reconhecimento do outro enquanto outro?. O outro é o máximo que se consegue para continuar existindo uma sociedade, uma cultura, algo comunicado, referenciado (mesmo que aí o entendimento não tenha lá tanta importância). No entanto, jamais sabemos do outro. Descarte o disse muito bem. Só pensamos à partir de nós mesmos. Essa é a revolução cartesiana. Penso. O outro e o mundo só o recuperamos no e pelo pensamento. A intencionalidade não resolveu o problema. E é aqui que se coloca o como se estabelece as relações, os contatos, os vínculos. Todos os contatos são problemáticos para os humanos, exatamente porque ele pensa. Portanto se se quiser viver numa relação, é bom não pensá-la. Todos esses problemas povoam a clínica e não é à toa. A clínica ouve e ver as patologias desse paradoxo. Há sempre a necessidade de falar e saber sobre, e do outro. É isso mesmo a essência das ciências do homem. Às vezes, veladamente, essa arrogância de dizer do outro mais do que o outro diria se passa assim: "foi isso o que ele quis dizer"..." não foi isso que ele quis dizer.." "na verdade, ele disse isso , e não isso..." Marx dizia que não se reconhecia no que diziam que ele tinha dito: não sou marxista. Da mesma forma, muita gente. Lacan não se orgulhava de ter dito de Freud melhor que o próprio Freud ?. Tudo isso, ao nosso ver, são apenas estratégias de poder que a cultura ocidental inventou por dentro das universidades. Um modo de passar o poder pelo saber. Pois dizer o que o outro pensa não é despojá-lo de todo poder de decisão. Boa estratégia de dominação! Pensar não é saber sobre o outro. Talvez seja despojar-se do desejo de dominação. Isso é possível?
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