Quero trazer para você apenas uma questão, uma questão simples que acredito tratar-se de uma das mais pertinentes para os dias de hoje. Como não poderia deixar de ser essa questão advém de Nietzsche. Para irmos direto a ela, trata-se da relação (se é que podemos falar em relação) do pensamento com a vida, do pensamento com a existência.
Deleuze em uma entrevista à Claire Parnet, em 1986, ao falar de Foucault diz: “Desde que se pensa, se enfrenta necessariamente uma linha onde estão em jogo a vida e a morte, a razão e a loucura, e essa linha nos arrasta”. (Conversações p.129).
Ou então o próprio Foucault nas Palavras e as Coisas. Ele nos diz: “O pensamento moderno nunca pôde, a bem dizer, propor uma moral: mas a razão disso não reside em ser ele pura especulação; muito pelo contrário, ele é, logo de entrada, e na sua própria espessura, um certo modo de ação. Para o pensamento moderno não há moral possível porque, desde o século XIX o pensamento já ‘saiu’ de si, do seu ser próprio, já não é teoria; desde que pensa, o pensamento fere ou reconcilia, aproxima ou afasta; não pode coibir-se de libertar e de subjugar. Antes mesmo de prescrever, de esboçar um futuro, de dizer o que cumpre fazer, antes mesmo de exortar ou apenas de alertar, o pensamento, ao nível da sua existência, desde a sua forma mais matinal, é em si uma ação – um acto perigoso.”p.427.PC Nietzsche, assim como Sade, Artaud e Bataille, conclui Foucault, o souberam muito bem.
É neste ponto que pretendemos nos deter. Como pensar este pensamento que de entrada é navalha ou afago, fogo ou brisa nordestina? Ou antes, quê pensamento é este?
Podemos então nos perguntar como conciliar estes dois movimentos antagônicos, de busca das origens, movimento em direção ao passado, e de um pensamento que, de entrada, é ação, produção de presente?
Como suportar e articular este duplo investimento: por um lado, do conhecer - que é sempre sobre algo distanciado – e do agir – que se encontra sempre na imanência da própria vida?
Tratar-se-ia de dois tipos de pensamento em um só pensador? Será isto possível?
Sabemos que as últimas pesquisas de Michel Foucault, bem como de Gilles Deleuze, circularam em torno dos problemas dos processos de subjetivação e de modos de existências.
Como pensar estas questões sem que o desassossego nos leve ao desespero? Como pensar essas questões como experiências do pensamento?
Sabemos que o conhecimento tornou-se nosso tesouro
A nosso ver, a importância em voltar o olhar para o passado não se encontra na veracidade dos fatos lá encontrados, mas no diferencial das diversas formas constituídas. É Nietzsche que nos diz logo no início na Genealogia da Moral: “Por fortuna logo aprendi a separar o preconceito teológico do moral, e não mais busquei a origem do mal por trás do mundo. Alguma educação histórica e filológica, juntamente com um inato senso seletivo em questões psicológicas, em breve transformou meu problema em outro: sob que condições o homem inventou para si os juízos de valor“bom”e “mau”? e que valor têm eles?”
Evidentemente que ao colocar questões como estas Nietzsche se coloca como homem do conhecimento.
A vontade de conhecimento, a busca da verdade, empreendida no Ocidente pelos grego, instituindo os parâmetros da civilização e da barbárie ocidental teve em Nietzsche o seu ponto de retorno, mordeu sua própria cauda. Ao mesmo tempo em que se debruça sobre o passado não consegue dissocia-lo de um ato do presente. Desde O Nascimento da Tragédia o pensamento que busca a verdade surge como sendo apenas um tipo de pensamento, representado pelo deus Apolo. Mas por detrás de Apolo, Dioniso dança e pensa de outro modo.
Se tudo se encontra no solo da história, se tudo é invenção, torção, força instituinte, cabe saber como se institui.
Como suportar e articular este duplo investimento: por um lado, do conhecer - que é sempre sobre algo distanciado – e do agir - na imanência da própria vida?
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
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