O que é uma filosofia dos valores, uma filosofia que se coloca para além do bem e do mal? O que é se colocar para além do bem e do mal? O que significa extra-moral? Zaratustra é um belo livro, mas também um homem quase santo. Ele ama os homens. Ele quer falar aos homens? O que ele quer falar aos homens? Que Deus morreu? Que o homem enfim pode ser um ser superior? Certamente. Mas ninguém o escuta. Sobra-lhe apenas um defunto. Por que Nietzsche se posiciona contra Darwin? Por que ele se posiciona contra a lei do mais forte? Por que Nietzsche, considerado um filósofo do poder, da guerra, se coloca contra Darwin? Não seria para eles se afinarem? Se Nietzsche não afirma as idéias de Darwin é simplesmente porque não concorda com elas e não concordar com elas é não concordar com a máxima da lei da sobrevivência dos mais fortes. É preciso proteger os mais fortes contra os mais fracos, disse Nietzsche. Por que?
Tais questões são deveras questões delicadas, complicadas, pois exigem talvez a arte da delicadeza, da sutileza, para percorrer seus balizamentos, suas aporias, para esquivar-se das inúmeras armadilhas: do santo, do sacerdote, do político, do bufão, do marginal, do louco.Há valores superiores? Nutrir um sentimento de ódio por alguém é superior a nutrir um sentimento de amor? Ou é o contrario? Nutrir um sentimento de amor é superior a um de ódio? Não serão ódio e amor sentimentos de aprisionados? Aprisionados no/pelo outro? Não existiria um para além do amor e ódio? Por que Nietzsche afirma que há ódio, muito ódio, no amor judaico/cristão? Trata-se segundo ele de um amor do lobo pelo cordeiro: quanto mais tenro, quanto mais mutilado, mais apetitoso, melhor. Não estaria aqui um dos mais nobre e mais belo segredos de Nietzsche, como o diz Deleuze, quando ele dá à irresponsabilidade seu sentido positivo? “Eu quis conquistar o sentimento de uma total irresponsabilidade, tornar-me independente dos elogios e da reprovação, do presente e do passado.[1] ” Mas apesar de tudo, Nietzsche nutre um grande sentimento de amor pela humanidade. Seria amor de águia, de lobo? Certamente que não. O amor, certamente é superior ao ódio. Este jamais deixa de ser uma reação, uma vingança. Não há criação com o ódio.
[1] Vontade de Potência, III, 383 3 465, Apud Deleuze, Nietzsche e a filosofia, p. 17.
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
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