quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Coletivos visíveis, coletivos invisíveis

Estamos sempre no coletivo. Talvez seja necessário distinguir coletivos visíveis e coletivos invisíveis. O primeiro exige a participação do corpo presente, roda de convivência, de sociabilidade. Nos coletivos invisíveis não é necessário a presença do corpo dos componentes. Há ainda muitos equívocos no que diz respeito às lutas sociais, às transformações sociais. As pessoas ainda se guiam muito pela presença física para reconhecer os companheiros, que há participação ou colaboração. É um grande equívoco. Vemos hoje cada vez mais pessoas participarem de movimentos, mesmo em nome da transformação social, para se projetarem e afirmarem quase sempre uma política conservadora, de medo. Trata-se de um novo gregarismo?. Ocupar os espaços, como se dizia não faz muito tempo, para barrar os movimentos, para passar mesquinhas competições, para gerar afectos paralisantes. É preciso então tomarmos cuidado. Estamos vendo isso acontecer com as apropriações do pensamento de Nietzsche, Foucault, Deleuze e Guattari. Estes são os caras da vez. Vários eventos estão sendo realizados em seus nomes, com seus nomes. No entanto, através dos seus nomes, muitas vezes vemos passar um código moral, um modo de existência que não era o que eles ao longo da sua trajetória fez e dizia ser o que interessava. Na realidade, novos grupelhamentos microfascistas!?
O plano dos coletivos invisíveis necessariamente pressupõe a solidão. Deleuze já dizia que toda solidão é povoada, toda solidão é coletiva. Mas a solidão povoada na elimina a solidão. É do coletivo invisível a não presença corporal, o fazer em outras direções. Há várias maneiras de bloquear os movimentos. Uma das principais são as produções que exigem o deslocamento dos corpos. O modo de produção capitalístico é a grande máquina produtora desse esquema sensório-motor. O trabalhador deve se deslocar. Seu tempo é tomado por fazeres outros. Ação e reação. Vivenciamos isso hoje na academia, com a exigência de presença em reuniões, em apresentar trabalhos em eventos ditos científicos. Aparentemente os corpos pavoneiam, se movimentam em muitas direções. Com isso não há tempo para produzir outros movimentos. O máximo que se pode fazer em outra direção é no tempo de férias, deslocar-se para paraísos pré-fabricados. No entanto, há pouco movimento, criação. Os eventos acadêmicos, para pegarmos termos de Deleuze, são esquemas sensório-motores; o personagem percebe, é forçado a agir, sente, reage, atua. Deste modo, espanta os devires, espanta outras temporalidades, espanta o tempo. Os eventos sociais tornaram-se espaços de sociabilidade, frequentemente ocupados por grupelhos inimigos, mas que é preciso ser polido: conviver com as diferenças. Grupelhos que se suportam. Nada disso seria triste se lá não estivessem sujeitos que se querem criadores. A pós-graduação não tá se tornando uma camisa de força contemporânea do pensamento?. Tendo como pano de fundo as projeções midiáticas os corpos querem aparecer, se vender ou vender suas mercadorias.
Talvez seja necessário pensarmos nos coletivos invisíveis.
- Mas como, você ta denegrindo a classe dos acadêmicos? Dos pesquisadores? Com que direito? Você se considera melhor que os outros? Se considera um criador?
Talvez seja necessário pensarmos na solidão como resistência. Uma cultura do silêncio, dos movimentos silenciosos, pois é em silêncio que as sociedades, as pessoas, vão se desintegrando, as culturas se destruindo.

2 comentários:

Kleber disse...

OI Maurício, que sejam bem vidas à blogosfera as enunciações que lhe atravessam e nos permitem conexões. Conexões impessoais, por certo. Digo isso para declarar que assim como os coletivos, creio que a solidão também possa ser problematizada como visível e invisível. Penso que a resistência seja via para forças que não se prendem a uma representação, mas que também não navegam solitariamente. Abraço!

Unknown disse...

Querido Maurício, tenho muito me encantado pela força do silêncio. Um pajé, um dia me disse que Deus no Tupy: "Tupã", significava Grande Som. "Tupy", significava som-de-pé. O homem é relações de forças vibráteis então.Ao mesmo tempo ele chamou as forças criadoras, o nosso potencial divinizante de "silêncio luminoso". É a partir do silêncio e da solidão, mesmo no entretempo dos diálogos, do exercício de coletividade, que a criação se manifesta. Fez-me paz, na minha solidão coletiva da virtualidade, ler o seu texto. Acompanho então um blog pela primeira vez. Abraço grande querido irmão. Aldo