Após alguns séculos de existência, o que podemos dizer a respeito de nós, humanos? Que somos seres pautados para a criação, invenção; somos também seres pautados para a destruição; que somos seres pautados para a dependência bem como seres pautados para a atividade. Os produtos das criações humanas - obras culturais, simbólicas -, são seres frágeis. Uma pintura, uma escultura, uma obra arquitetônica, uma obra escritas quantas já foram destruídas, queimadas, transformadas em cinzas ou entulhos?! Mesmo as obras da natureza, seres vivos, vegetais ou animais, foram/são transformados em cinzas!
Em que nós, professores de nível superior, intelectuais, colaboramos para a destruição a partir da nossa produção intelectual, nossa pesquisa, nosso ensino? Quais são os efeitos das nossas produções intelectuais, das nossas posturas intelectuais? Dos nossos fazeres intelectuais? Nós, intelectuais somos seres de cultura. Estamos a lidar com o aspecto efêmero do ser humano, o mais invisível, mas também aquele voltado para a criação da cultura. Em primeiro lugar qualquer obra humana é manifestação das potencialidades vitais e criadoras dos seres humanos. Mas, nas academias, não são raros os momentos em que se jogam fora o produto de um pensador como se fosse algo totalmente desprezível, como se fosse fácil fazer uma obra cultural.Grosso modo, podemos dizer que a destruição de uma obra cultural, uma criação humana pode ser destruída de dois modos, queimando, quebrando ou deixando ela no limbo, fazendo com que ela própria, aos poucos, desapareça na poeira.Nós intelectuais, então, podemos incentivar com que os corpos humanos juvenis não percebam o que há de mais essencial de um ser humano, sua capacidade criadora. Podemos manipular seres humanos para serem meros consumidores, adeptos, incentivar apenas o gostar, o fanatismo, deixando obscuro que tudo é e sempre foi produtos humanos, criações do humano para o humano. Seres voltados para o consumo, para o gosto, para o fanatismo são seres voltados para a destruição inevitavelmente. Pois, se faltar a mercadoria......Se estas idéias possuem algum sentido e verdade(verdade, falei verdade, palavra tão menosprezada hoje em dia!) não deveríamos em primeiro lugar adorar o homem enquanto criador como se adora deus como criador? Essa não deveria ser uma primeira lei superior, a primeira lei do homem para o homem? Uma segunda não poderia ser, nenhum homem pode destruir o que foi criado, e criar sempre a partir de outras criaturas que foram criadas? É possível Michelangelo desaparecer, a obra de Freud desaparecer, qualquer obra desaparecer? Claro. Talvez seja esse o lado mais perverso do modo de produção do viver atual, que é também uma criação humana. Essa produção humana, que alguns chamam de capitalismo ou capitalístico, e que nós, intelectuais universitários aderimos, não se pautaria por esse esquecimento ou menosprezo do próprio homem, como se não fossem homens produzido para homens, como se sua força fosse de uma ordem supra-humana, a qual todos nós estaríamos submetidos? Seu primeiro feito ilusionista não é colocar os corpos humanos na ciranda trabalhista: trabalho, emprego, salário, consumo, trabalho, desemprego, miséria, fome, roubo, consumo, trabalho, emprego, alegria, consumo....ou seja neste nível mais baixo da potencialidade humana, seu nível sobrevivência animal faminto, dependente do patrão-dono? Qual sentido possui para um faminto a obra escrita de Freud, Platão, Maquiavel, Foucault, a pintura de Rembrandt, Picasso? Como convertê-las em comida. E não adianta dizer que foram criações e que revelam a maravilhosa potencialidade do ser humano! E daí? Mas nós, professores universitários, estamos colaborando para isso. Aos poucos entramos na ciranda trabalhista, finacista(uma mísera bolsa ou financiamento), na projeção pessoal, no assassinato de obras criados por outros humanos. Nada disso presta: Freud não presta, Nietzsche não presta, Marx não presta, Picasso não presta, Pollock não presta: queimemos então. Uma nova barbárie se aproxima?!
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
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Um comentário:
Ao mesmo tempo, parece aproximar-se uma outra delicadeza, que certamente prescinde das grandes obras e dos grandes feitos. Portanto o problema está em saber até onde podemoremos ou conseguiremos sustentar os edifícios culturais da humanidade, a partir de que ponto podemos esquecê-los, e o que é necessário para seguir inventando pequenas esculturas (móbiles, talvez), feitos com fragmentos que todavia não apresentam ou representam a obra partida, mas sim as grandes obras aspiradas pouco a pouco, em linhas, em carreiras breves... e não introjetdas como muralhas.
Apesar da reprodução e do esquecimento, apesar do humanismo que conserva e da estupidez que devasta, vejo aproximarem-se fogos de ardente saber na criação universitária minoritária de uma gente jovem, etc.etc.etc.
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