Após alguns séculos de existência, o que podemos dizer a respeito de nós, humanos? Que somos seres pautados para a criação, invenção; somos também seres pautados para a destruição; que somos seres pautados para a dependência bem como seres pautados para a atividade. Os produtos das criações humanas - obras culturais, simbólicas -, são seres frágeis. Uma pintura, uma escultura, uma obra arquitetônica, uma obra escritas quantas já foram destruídas, queimadas, transformadas em cinzas ou entulhos?! Mesmo as obras da natureza, seres vivos, vegetais ou animais, foram/são transformados em cinzas!
Em que nós, professores de nível superior, intelectuais, colaboramos para a destruição a partir da nossa produção intelectual, nossa pesquisa, nosso ensino? Quais são os efeitos das nossas produções intelectuais, das nossas posturas intelectuais? Dos nossos fazeres intelectuais? Nós, intelectuais somos seres de cultura. Estamos a lidar com o aspecto efêmero do ser humano, o mais invisível, mas também aquele voltado para a criação da cultura. Em primeiro lugar qualquer obra humana é manifestação das potencialidades vitais e criadoras dos seres humanos. Mas, nas academias, não são raros os momentos em que se jogam fora o produto de um pensador como se fosse algo totalmente desprezível, como se fosse fácil fazer uma obra cultural.Grosso modo, podemos dizer que a destruição de uma obra cultural, uma criação humana pode ser destruída de dois modos, queimando, quebrando ou deixando ela no limbo, fazendo com que ela própria, aos poucos, desapareça na poeira.Nós intelectuais, então, podemos incentivar com que os corpos humanos juvenis não percebam o que há de mais essencial de um ser humano, sua capacidade criadora. Podemos manipular seres humanos para serem meros consumidores, adeptos, incentivar apenas o gostar, o fanatismo, deixando obscuro que tudo é e sempre foi produtos humanos, criações do humano para o humano. Seres voltados para o consumo, para o gosto, para o fanatismo são seres voltados para a destruição inevitavelmente. Pois, se faltar a mercadoria......Se estas idéias possuem algum sentido e verdade(verdade, falei verdade, palavra tão menosprezada hoje em dia!) não deveríamos em primeiro lugar adorar o homem enquanto criador como se adora deus como criador? Essa não deveria ser uma primeira lei superior, a primeira lei do homem para o homem? Uma segunda não poderia ser, nenhum homem pode destruir o que foi criado, e criar sempre a partir de outras criaturas que foram criadas? É possível Michelangelo desaparecer, a obra de Freud desaparecer, qualquer obra desaparecer? Claro. Talvez seja esse o lado mais perverso do modo de produção do viver atual, que é também uma criação humana. Essa produção humana, que alguns chamam de capitalismo ou capitalístico, e que nós, intelectuais universitários aderimos, não se pautaria por esse esquecimento ou menosprezo do próprio homem, como se não fossem homens produzido para homens, como se sua força fosse de uma ordem supra-humana, a qual todos nós estaríamos submetidos? Seu primeiro feito ilusionista não é colocar os corpos humanos na ciranda trabalhista: trabalho, emprego, salário, consumo, trabalho, desemprego, miséria, fome, roubo, consumo, trabalho, emprego, alegria, consumo....ou seja neste nível mais baixo da potencialidade humana, seu nível sobrevivência animal faminto, dependente do patrão-dono? Qual sentido possui para um faminto a obra escrita de Freud, Platão, Maquiavel, Foucault, a pintura de Rembrandt, Picasso? Como convertê-las em comida. E não adianta dizer que foram criações e que revelam a maravilhosa potencialidade do ser humano! E daí? Mas nós, professores universitários, estamos colaborando para isso. Aos poucos entramos na ciranda trabalhista, finacista(uma mísera bolsa ou financiamento), na projeção pessoal, no assassinato de obras criados por outros humanos. Nada disso presta: Freud não presta, Nietzsche não presta, Marx não presta, Picasso não presta, Pollock não presta: queimemos então. Uma nova barbárie se aproxima?!
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
ABRINDO A CAIXA DE PANDORA
1. Colocarei uma questão não porque sei a resposta, mas exatamente por não tê-la. Eis: Até onde se pode politizar a inteligência? Podemos ainda afirmar que há níveis de inteligência? Parece que tá ficando politicamente incorreto falar dessas coisas. Parece que estamos entrando numa época em que todos querem ter as mesmas capacidades ou talvez não querem estabelecer hierarquias de poder em função do saber ou da inteligência. Claro que no campo das nadarias, isto é, das ciências humanas, parece que isto é possível. Mas no campo das ciências exatas, é? Se nossa ciência hoje se confunde com os avanços tecnológicos, com atualizações tecnológicas que supõem cálculos etc, parece não ser possível avançar sem esses conhecimentos de base. Mas, na psicologia, quais são nossos conhecimentos de base? Conhecimentos imprescindíveis a todos os psicólogos? Existe isso? Podemos dizer que existe em todos os psicólogos existentes no mundo, ou mesmo no Brasil, ou mesmo em Aracaju, conhecimentos básicos, uniformes? Quais seriam esses conhecimentos que são produtos dos estudos e pesquisas da Psicologia, produzidos pela Psicologia?
2. Devemos admitir que a sociedade ocidental atual necessita de um mínimo de inteligência dos corpos humanos? Os conhecimentos atuais não necessitam de determinadas capacidades intelectuais para serem produzidos? Sabemos hoje que todos os seres vivos são seres dotados de inteligência e que seus comportamentos inteligentes possuem sintonia fina com seus modos de vida, com as exigências de cada ambiente que lhes estão associados.
3. Sabemos que Michel Foucault reavivou o tema poder/saber, o que fez com que muita gente pensasse assim: não há saber dissociado de poder, logo é o poder quem define o saber, logo se tenho o poder de escolha eu escolho quem eu quiser. Será essa afirmação verdadeira? Ou melhor: quais efeitos produzem tal afirmação?
4. A pergunta realizada acima, até onde podemos politizar a inteligência, se coloca estritamente para os corpos humanos, seres vivos e considerados de maior inteligência entre os vivos. Mas sabemos que nos seres humanos outros fatores comandam suas condutas: amizade, afetividade, sociabilidade, poder. Sabemos que amizade, sociabilidade, afetividade e poder não produzem conhecimento senão atrelados à inteligência. Seus sentidos são de outras ordens. No contexto em que nos encontramos, século XXI, com toda uma história de conhecimentos produzidos pela inteligência, pelo pensamento, que fizeram avançar a própria inteligência e os conhecimentos (história interna de cada ciência), até onde organizações voltadas para o conhecimento, como as Universidades, podem escolher seus atores pela via que não seja das capacidades intelectuais e dos conhecimentos produzidos? Sendo psicólogo, coloco esta questão tendo este campo e a Universidade como campo de referência problematizante. Sabemos que a psicologia é um campo de saber disperso. Nele não há consenso. Há grupamentos, partidários de uma linha de pensamento e de atuação. Trata-se ainda de conhecimento? Estamos entrando na barbárie dos guetos, das amizades, inimizades, amigos e inimigos? Parece que estamos caminhando nesta direção.
2. Devemos admitir que a sociedade ocidental atual necessita de um mínimo de inteligência dos corpos humanos? Os conhecimentos atuais não necessitam de determinadas capacidades intelectuais para serem produzidos? Sabemos hoje que todos os seres vivos são seres dotados de inteligência e que seus comportamentos inteligentes possuem sintonia fina com seus modos de vida, com as exigências de cada ambiente que lhes estão associados.
3. Sabemos que Michel Foucault reavivou o tema poder/saber, o que fez com que muita gente pensasse assim: não há saber dissociado de poder, logo é o poder quem define o saber, logo se tenho o poder de escolha eu escolho quem eu quiser. Será essa afirmação verdadeira? Ou melhor: quais efeitos produzem tal afirmação?
4. A pergunta realizada acima, até onde podemos politizar a inteligência, se coloca estritamente para os corpos humanos, seres vivos e considerados de maior inteligência entre os vivos. Mas sabemos que nos seres humanos outros fatores comandam suas condutas: amizade, afetividade, sociabilidade, poder. Sabemos que amizade, sociabilidade, afetividade e poder não produzem conhecimento senão atrelados à inteligência. Seus sentidos são de outras ordens. No contexto em que nos encontramos, século XXI, com toda uma história de conhecimentos produzidos pela inteligência, pelo pensamento, que fizeram avançar a própria inteligência e os conhecimentos (história interna de cada ciência), até onde organizações voltadas para o conhecimento, como as Universidades, podem escolher seus atores pela via que não seja das capacidades intelectuais e dos conhecimentos produzidos? Sendo psicólogo, coloco esta questão tendo este campo e a Universidade como campo de referência problematizante. Sabemos que a psicologia é um campo de saber disperso. Nele não há consenso. Há grupamentos, partidários de uma linha de pensamento e de atuação. Trata-se ainda de conhecimento? Estamos entrando na barbárie dos guetos, das amizades, inimizades, amigos e inimigos? Parece que estamos caminhando nesta direção.
sábado, 4 de outubro de 2008
Outras palavras, outras vidas? Outras vidas, outras palavras?
Palavras, conceitos, modos de viver e estar. Redes palavras viver. Novas, podem nos fazer, nos levar? Não se trata mais de psico-logia, nem de comportamental-ismo ou cognitiv-ismo ou human-ismo, sociolog-ismo. Precisamos de novas palavras sem referência ao sujeito ou à sociedade. Ciência do atual. Ciência dos encontros, da imanência. Ciência do porvir. Encontro é inocência. Será isso possível, recuperar a força de cada corpo-molécula sem a memória-resentimento, sem o desejo-poder dominação? Já não sabemos que os problemas nascem quando se cria transcendentes ou transcendências, ou seja, quando se pretende estabelecer leis para todos ou para os outros, mesmo incluindo-se? Nossos problemas não são os outros quando não se adequam às nossas explorações/subjugações?
SOBRE FOUCAULT
Achamos que desde sua primeira obra, Doença mental e Psicologia( 1958 ), Michel Foucault nos coloca, já na introdução, na perspectiva genealógica. Diz ele: “Gostaria de mostrar que a raiz da patologia mental não deve ser procurada em uma 'metapatologia' qualquer mas numa certa relação, historicamente situada(grifo nosso), entre o homem e o homem louco e o homem verdadeiro.”[1] Na analítica genealógica problematizar adquire um sentido novo, diferente do da analítica filosófica. Segundo Foucault, problematizar “é o conjunto das práticas discursivas ou não discursivas que faz alguma coisa entrar no jogo do verdadeiro e do falso e a constitui como objeto para o pensamento (seja sob a forma de reflexão moral, do conhecimento científico, da análise política, etc).”[2] Ou ainda, “(...) são os efeitos de poder próprios a um discurso considerado científico que a genealogia deve combater...A reativação dos saberes locais - menores, diria talvez Deleuze - contra a hierarquização científica do conhecimento e seus efeitos intrínsecos de poder, eis o projeto destas genealogias desordenadas e fragmentárias.”[3] O genealogista busca a proveniência das coisas existentes, mostra que seu começo, sua constituição, se fez a partir de um estado de dispersão, como acontecimento de um encontro de forças. Ao olhar para o passado o que se encontra é a dispersão/multiplicidade empirista, é a pura exterioridade dos elementos em embate, antes de constituírem-se em órgãos, interioridades subjetivas ou exterioridades objetivas. Foucault, num texto de 1972, intitulado Nietzsche, a Genealogia e a história, escreve: “A pesquisa da proveniência não funda, muito pelo contrário: ela agita o que se percebia imóvel, ela fragmenta o que se pensava unido; ela mostra a heterogeneidade do que se imaginava em conformidade consigo mesmo. Que convicção lhe resistiria? Mais ainda, que saber?” [4] Dois fatores são fundamentais ao genealogista. Primeiramente, o genealogista incorpora o tempo nas coisas. A incorporação do tempo pode ser realizada de dois modos diferentes. O primeiro constitui a perspectiva evolutiva e faz com que o passado promova o presente e o torne possível. O segundo, genealógico, faz com que o presente se destaque do passado, conferindo-lhe um sentido e tornando-o inteligível. Em segundo lugar, ele afirma que a emergência de algo é um efeito, um acontecimento, proveniente de um campo de forças. Assim, por exemplo, se as psicologias nos mostram as formas de aparecimento dos distúrbios mentais, só o genealogista pode nos mostrar as condições do seu surgimento. Em Doença mental..., Foucault nos diz que nem a evolução orgânica, nem a história psicológica ou a situação do homem no mundo, cara aos fenomenólogos, revelam estas condições. “Sem dúvida, é nelas que a doença se manifesta, é nelas que se revelam suas modalidades, sua formas de expressão, seus estilos. Mas é noutra parte que o desvio patológico tem, como tal, suas raízes.”[5] Assim, a patologia mental só encontra seu sentido no interior de uma dada cultura. "A doença só tem realidade e valor de doença no interior de uma cultura que a reconhece como tal."[6] Um exemplo claro do adestramento do homem para transformar os corpos em força ativa é o que mostra Foucault com respeito a moral grega. Diz ele que “na moral antiga, o domínio de si só é um problema para o indivíduo que deve ser senhor dele e senhor dos outros e não para o que deve obedecer aos outros."[7] Já a moral cristã é uma moral feita para todos aqueles que devem obedecer, e é neste sentido que ela é uma moral do escravo, do homem reativo, segundo Nietzsche. O que caracteriza a atualidade é a minimilização dos contatos de fazeres, isto é, os corpos se tornaram demasiados discursivos. Entendemos que Foucault mudou o estatuto dos discursos exatamente por isso. Ele fez com que os discursos deixassem de significar, o que demandavam uma hermenêutica eterna, para adquirir uma potência pragmática. Ele fez com que o discurso deixasse de se remeter para uma interioridade significativa para se posicionarem numa pura exterioridade, um dado entre outros. Esse dado hoje, ou seja, o discurso, está adquirindo funções muito interessantes. A principal delas é o de ser vazio. Os discursos, cada vez mais perdem sua importância enquanto veículo de conhecimento.
No entanto, a exterioridade do discurso pode levar também a reapropriações, conforme a força que dela se apodera. Os reativos vão tomar a linguagem para adquirir poder ou eliminar poderes: brigas no interior das sociedades oficiais dos saberes. Os ativos, irão se apoderar dela para criar, inventar novas formas de vida. Se tudo é exterior, melhor falar de fora. Se alguém acha algo estranho, essa estranheza é apenas um embate da sua memória, já formalizada, tornada hábito, com o que advém.
[1]Michel Foucault, Doença mental e psicologia. p. 8
[2] Michel Foucault, O cuidado com a verdade, entrevista com François Ewald, Le Magazin, in Dossier Michel Foucault, Rio de Janeiro, Ed. Taurus, 1984.
[3] Foucault, Michel - Microfísica do poder. Trad. Roberto Machado. Rio de janeiro, Ed. Graal, 1979. pp. 171/2
[4]Idem, Nietzsche, a gnealogia e a história; in Microfísica do poder. p. 21
[5]Idem, Doença mental .. p. 71
[6]Idem, Ibdem, p. 71
[7] Idem, ibdem, p.80
No entanto, a exterioridade do discurso pode levar também a reapropriações, conforme a força que dela se apodera. Os reativos vão tomar a linguagem para adquirir poder ou eliminar poderes: brigas no interior das sociedades oficiais dos saberes. Os ativos, irão se apoderar dela para criar, inventar novas formas de vida. Se tudo é exterior, melhor falar de fora. Se alguém acha algo estranho, essa estranheza é apenas um embate da sua memória, já formalizada, tornada hábito, com o que advém.
[1]Michel Foucault, Doença mental e psicologia. p. 8
[2] Michel Foucault, O cuidado com a verdade, entrevista com François Ewald, Le Magazin, in Dossier Michel Foucault, Rio de Janeiro, Ed. Taurus, 1984.
[3] Foucault, Michel - Microfísica do poder. Trad. Roberto Machado. Rio de janeiro, Ed. Graal, 1979. pp. 171/2
[4]Idem, Nietzsche, a gnealogia e a história; in Microfísica do poder. p. 21
[5]Idem, Doença mental .. p. 71
[6]Idem, Ibdem, p. 71
[7] Idem, ibdem, p.80
PONDO SOBRE O QUE É UM PROBLEMA E A CRÍTICA
Deleuze já nos disse: diante de um pensador podemos ter duas atitudes críticas. A primeira diz: "as coisas não são assim. São assim." É a crítica das soluções. Ela parte do que diz o filósofo e confunde o dito como se "fosse o que ele faz e quer" (p.117) Esta crítica se coloca nas intenções do filósofo. A segunda crítica se coloca na questão do filósofo, e "criticar a questão significa mostrar em que condições ela é possível e se está bem colocada, quer dizer, como as coisas seriam o que são se não fosse esta a questão."(p.117) "Neste caso não se trata de saber se as coisas são assim ou que não o são; trata-se de saber se é ou não boa, se é rigorosa ou não, é o problema que as fazem assim." Hume, por exemplo, coloca a questão do sujeito e o situa nos seguintes termos: o sujeito se constitui no dado. Apresenta as condições de possibilidade, a crítica da questão, desta forma: as relações são exteriores aos termos. O atomismo e o associacionismo são consequências dessa questão. Se se quer objetar é necessário objetar a questão e mais nada. A questão do estruturalismo é: o sujeito se constitui na estrutura. Essa estrutura é abstrata, impõe uma forma, mas não os conteúdos. Os conteúdos são impostos pelas circunstâncias de vida. A estrutura , apesar de subtendida, se estruturaliza em cada indivíduo. É necessário que em cada indivíduo a estrutura se realize. É esta realização da estrutura que cria os diversos sintomas, as diversas personalidades. A estrutura não elimina o novo, a invenção. Ela apenas elimina a desordem no sujeito, isto é, a impossibilidade de se viver em sociedade sem um mínimo de ordem. O mínimo da ordem é a ordem triádica. Dai o Édipo revisitado em Lacan. Numa visão fenomenológica supõem-se que haja uma experiência da loucura e que o historiador a revelaria. Parte-se de uma experiência para revelar outras experiências. Naturalizaríamos a loucura. Parte-se do objeto presente. Toma-se partido do louco e não dos cuidadores e sabedores da loucura. Ou melhor, os cuidadores da loucura se identificam com estes, e vê a loucura como uma possibilidade humana. Substitui-se a natureza da razão que conhece, que quer conhecer, pela natureza da loucura. Substitui-se a explicação pela compreensão. Deste modo, naturalizam a loucura. O fenomenólogo estabelece uma natureza humana. Agora, se se parte do pensamento, o que se tem é que a loucura é uma experiência do pensamento, não no sentido que há uma loucura no pensamento ou que o pensamento pode se tornar louco. Mas que a loucura é simplesmente algo pensada. Daí Deleuze submeter a experiência da loucura a experiência do pensamento. É o pensamento que pensa a loucura. Não fosse isso naturalizaríamos não mais a loucura mas o próprio pensamento. Sabemos que o pensamento é um acontecimento, um devir. Há uma espécie de ciclo vicioso, de eterno retorno, dessas duas pontas: pensamento como natureza naturalizada que pensa o mundo, e o mundo, no qual e para o qual o pensamento emerge. O mais fluido e o mais duro se encontram. O finito e o infinito. O pensamento e as coisas. Corremos o risco de ser pretensioso; de extrapolarmos os limites do senso comum. E quando se trata do pensamento, também neste temos nossos bons sensos. Quando lemos os filósofos, o normal é lê-los do exterior. Comentamos seus achados, suas chegadas. No entanto, é possível perguntar como ele chegou a elaborar suas idéias. Isto é, como ele elaborou seu pensamento. Nosso desafio hoje é trilhar esse duplo movimento: primeiro, o trabalho acadêmico se pauta pela exterioridade. Falamos e escrevemos sobre os outros. Por outro lado, o trabalho de pensamento se faz no proximal, a partir de si. É essa situação paradoxal que se coloca neste momento. Qual momento? Não me pergunte. O homem, no entanto, pode ser chupado por muitas forças. O prazer, por exemplo, (biologia) ou então a autoridade, no sentido do mandar/obedecer (poder, no qual a economia é apenas uma parte); ou ainda ser chupado para o significado, para o entendimento (a linguagem escrita e o conhecimento). Essas forças, não podemos menosprezá-las, são tão fortes que muitas vezes alguns pensadores a transformaram e transformam em princípios explicativos da natureza humana. Podemos dizer que todos os princípios estipulados por alguém, este o sentiu fortemente. Assim, em Freud, a sexualidade. Ele a viveu de maneira aterradora. O prazer é um desafio, uma natureza desafiante, e não um solo explicativo para o pensamento. A sexualidade é uma força que conduz o corpo a fechar-se, auto-erotismo, excluindo ou usando o outro. Foi isso que Freud percebeu?. Daí ele o ter colocado em oposição ao principio de realidade, este sendo o reconhecimento do outro enquanto outro?. O outro é o máximo que se consegue para continuar existindo uma sociedade, uma cultura, algo comunicado, referenciado (mesmo que aí o entendimento não tenha lá tanta importância). No entanto, jamais sabemos do outro. Descarte o disse muito bem. Só pensamos à partir de nós mesmos. Essa é a revolução cartesiana. Penso. O outro e o mundo só o recuperamos no e pelo pensamento. A intencionalidade não resolveu o problema. E é aqui que se coloca o como se estabelece as relações, os contatos, os vínculos. Todos os contatos são problemáticos para os humanos, exatamente porque ele pensa. Portanto se se quiser viver numa relação, é bom não pensá-la. Todos esses problemas povoam a clínica e não é à toa. A clínica ouve e ver as patologias desse paradoxo. Há sempre a necessidade de falar e saber sobre, e do outro. É isso mesmo a essência das ciências do homem. Às vezes, veladamente, essa arrogância de dizer do outro mais do que o outro diria se passa assim: "foi isso o que ele quis dizer"..." não foi isso que ele quis dizer.." "na verdade, ele disse isso , e não isso..." Marx dizia que não se reconhecia no que diziam que ele tinha dito: não sou marxista. Da mesma forma, muita gente. Lacan não se orgulhava de ter dito de Freud melhor que o próprio Freud ?. Tudo isso, ao nosso ver, são apenas estratégias de poder que a cultura ocidental inventou por dentro das universidades. Um modo de passar o poder pelo saber. Pois dizer o que o outro pensa não é despojá-lo de todo poder de decisão. Boa estratégia de dominação! Pensar não é saber sobre o outro. Talvez seja despojar-se do desejo de dominação. Isso é possível?
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
Coletivos visíveis, coletivos invisíveis
Estamos sempre no coletivo. Talvez seja necessário distinguir coletivos visíveis e coletivos invisíveis. O primeiro exige a participação do corpo presente, roda de convivência, de sociabilidade. Nos coletivos invisíveis não é necessário a presença do corpo dos componentes. Há ainda muitos equívocos no que diz respeito às lutas sociais, às transformações sociais. As pessoas ainda se guiam muito pela presença física para reconhecer os companheiros, que há participação ou colaboração. É um grande equívoco. Vemos hoje cada vez mais pessoas participarem de movimentos, mesmo em nome da transformação social, para se projetarem e afirmarem quase sempre uma política conservadora, de medo. Trata-se de um novo gregarismo?. Ocupar os espaços, como se dizia não faz muito tempo, para barrar os movimentos, para passar mesquinhas competições, para gerar afectos paralisantes. É preciso então tomarmos cuidado. Estamos vendo isso acontecer com as apropriações do pensamento de Nietzsche, Foucault, Deleuze e Guattari. Estes são os caras da vez. Vários eventos estão sendo realizados em seus nomes, com seus nomes. No entanto, através dos seus nomes, muitas vezes vemos passar um código moral, um modo de existência que não era o que eles ao longo da sua trajetória fez e dizia ser o que interessava. Na realidade, novos grupelhamentos microfascistas!?
O plano dos coletivos invisíveis necessariamente pressupõe a solidão. Deleuze já dizia que toda solidão é povoada, toda solidão é coletiva. Mas a solidão povoada na elimina a solidão. É do coletivo invisível a não presença corporal, o fazer em outras direções. Há várias maneiras de bloquear os movimentos. Uma das principais são as produções que exigem o deslocamento dos corpos. O modo de produção capitalístico é a grande máquina produtora desse esquema sensório-motor. O trabalhador deve se deslocar. Seu tempo é tomado por fazeres outros. Ação e reação. Vivenciamos isso hoje na academia, com a exigência de presença em reuniões, em apresentar trabalhos em eventos ditos científicos. Aparentemente os corpos pavoneiam, se movimentam em muitas direções. Com isso não há tempo para produzir outros movimentos. O máximo que se pode fazer em outra direção é no tempo de férias, deslocar-se para paraísos pré-fabricados. No entanto, há pouco movimento, criação. Os eventos acadêmicos, para pegarmos termos de Deleuze, são esquemas sensório-motores; o personagem percebe, é forçado a agir, sente, reage, atua. Deste modo, espanta os devires, espanta outras temporalidades, espanta o tempo. Os eventos sociais tornaram-se espaços de sociabilidade, frequentemente ocupados por grupelhos inimigos, mas que é preciso ser polido: conviver com as diferenças. Grupelhos que se suportam. Nada disso seria triste se lá não estivessem sujeitos que se querem criadores. A pós-graduação não tá se tornando uma camisa de força contemporânea do pensamento?. Tendo como pano de fundo as projeções midiáticas os corpos querem aparecer, se vender ou vender suas mercadorias.
Talvez seja necessário pensarmos nos coletivos invisíveis.
- Mas como, você ta denegrindo a classe dos acadêmicos? Dos pesquisadores? Com que direito? Você se considera melhor que os outros? Se considera um criador?
Talvez seja necessário pensarmos na solidão como resistência. Uma cultura do silêncio, dos movimentos silenciosos, pois é em silêncio que as sociedades, as pessoas, vão se desintegrando, as culturas se destruindo.
O plano dos coletivos invisíveis necessariamente pressupõe a solidão. Deleuze já dizia que toda solidão é povoada, toda solidão é coletiva. Mas a solidão povoada na elimina a solidão. É do coletivo invisível a não presença corporal, o fazer em outras direções. Há várias maneiras de bloquear os movimentos. Uma das principais são as produções que exigem o deslocamento dos corpos. O modo de produção capitalístico é a grande máquina produtora desse esquema sensório-motor. O trabalhador deve se deslocar. Seu tempo é tomado por fazeres outros. Ação e reação. Vivenciamos isso hoje na academia, com a exigência de presença em reuniões, em apresentar trabalhos em eventos ditos científicos. Aparentemente os corpos pavoneiam, se movimentam em muitas direções. Com isso não há tempo para produzir outros movimentos. O máximo que se pode fazer em outra direção é no tempo de férias, deslocar-se para paraísos pré-fabricados. No entanto, há pouco movimento, criação. Os eventos acadêmicos, para pegarmos termos de Deleuze, são esquemas sensório-motores; o personagem percebe, é forçado a agir, sente, reage, atua. Deste modo, espanta os devires, espanta outras temporalidades, espanta o tempo. Os eventos sociais tornaram-se espaços de sociabilidade, frequentemente ocupados por grupelhos inimigos, mas que é preciso ser polido: conviver com as diferenças. Grupelhos que se suportam. Nada disso seria triste se lá não estivessem sujeitos que se querem criadores. A pós-graduação não tá se tornando uma camisa de força contemporânea do pensamento?. Tendo como pano de fundo as projeções midiáticas os corpos querem aparecer, se vender ou vender suas mercadorias.
Talvez seja necessário pensarmos nos coletivos invisíveis.
- Mas como, você ta denegrindo a classe dos acadêmicos? Dos pesquisadores? Com que direito? Você se considera melhor que os outros? Se considera um criador?
Talvez seja necessário pensarmos na solidão como resistência. Uma cultura do silêncio, dos movimentos silenciosos, pois é em silêncio que as sociedades, as pessoas, vão se desintegrando, as culturas se destruindo.
nietzschianas 2
Quero trazer para você apenas uma questão, uma questão simples que acredito tratar-se de uma das mais pertinentes para os dias de hoje. Como não poderia deixar de ser essa questão advém de Nietzsche. Para irmos direto a ela, trata-se da relação (se é que podemos falar em relação) do pensamento com a vida, do pensamento com a existência.
Deleuze em uma entrevista à Claire Parnet, em 1986, ao falar de Foucault diz: “Desde que se pensa, se enfrenta necessariamente uma linha onde estão em jogo a vida e a morte, a razão e a loucura, e essa linha nos arrasta”. (Conversações p.129).
Ou então o próprio Foucault nas Palavras e as Coisas. Ele nos diz: “O pensamento moderno nunca pôde, a bem dizer, propor uma moral: mas a razão disso não reside em ser ele pura especulação; muito pelo contrário, ele é, logo de entrada, e na sua própria espessura, um certo modo de ação. Para o pensamento moderno não há moral possível porque, desde o século XIX o pensamento já ‘saiu’ de si, do seu ser próprio, já não é teoria; desde que pensa, o pensamento fere ou reconcilia, aproxima ou afasta; não pode coibir-se de libertar e de subjugar. Antes mesmo de prescrever, de esboçar um futuro, de dizer o que cumpre fazer, antes mesmo de exortar ou apenas de alertar, o pensamento, ao nível da sua existência, desde a sua forma mais matinal, é em si uma ação – um acto perigoso.”p.427.PC Nietzsche, assim como Sade, Artaud e Bataille, conclui Foucault, o souberam muito bem.
É neste ponto que pretendemos nos deter. Como pensar este pensamento que de entrada é navalha ou afago, fogo ou brisa nordestina? Ou antes, quê pensamento é este?
Podemos então nos perguntar como conciliar estes dois movimentos antagônicos, de busca das origens, movimento em direção ao passado, e de um pensamento que, de entrada, é ação, produção de presente?
Como suportar e articular este duplo investimento: por um lado, do conhecer - que é sempre sobre algo distanciado – e do agir – que se encontra sempre na imanência da própria vida?
Tratar-se-ia de dois tipos de pensamento em um só pensador? Será isto possível?
Sabemos que as últimas pesquisas de Michel Foucault, bem como de Gilles Deleuze, circularam em torno dos problemas dos processos de subjetivação e de modos de existências.
Como pensar estas questões sem que o desassossego nos leve ao desespero? Como pensar essas questões como experiências do pensamento?
Sabemos que o conhecimento tornou-se nosso tesouro
A nosso ver, a importância em voltar o olhar para o passado não se encontra na veracidade dos fatos lá encontrados, mas no diferencial das diversas formas constituídas. É Nietzsche que nos diz logo no início na Genealogia da Moral: “Por fortuna logo aprendi a separar o preconceito teológico do moral, e não mais busquei a origem do mal por trás do mundo. Alguma educação histórica e filológica, juntamente com um inato senso seletivo em questões psicológicas, em breve transformou meu problema em outro: sob que condições o homem inventou para si os juízos de valor“bom”e “mau”? e que valor têm eles?”
Evidentemente que ao colocar questões como estas Nietzsche se coloca como homem do conhecimento.
A vontade de conhecimento, a busca da verdade, empreendida no Ocidente pelos grego, instituindo os parâmetros da civilização e da barbárie ocidental teve em Nietzsche o seu ponto de retorno, mordeu sua própria cauda. Ao mesmo tempo em que se debruça sobre o passado não consegue dissocia-lo de um ato do presente. Desde O Nascimento da Tragédia o pensamento que busca a verdade surge como sendo apenas um tipo de pensamento, representado pelo deus Apolo. Mas por detrás de Apolo, Dioniso dança e pensa de outro modo.
Se tudo se encontra no solo da história, se tudo é invenção, torção, força instituinte, cabe saber como se institui.
Como suportar e articular este duplo investimento: por um lado, do conhecer - que é sempre sobre algo distanciado – e do agir - na imanência da própria vida?
Deleuze em uma entrevista à Claire Parnet, em 1986, ao falar de Foucault diz: “Desde que se pensa, se enfrenta necessariamente uma linha onde estão em jogo a vida e a morte, a razão e a loucura, e essa linha nos arrasta”. (Conversações p.129).
Ou então o próprio Foucault nas Palavras e as Coisas. Ele nos diz: “O pensamento moderno nunca pôde, a bem dizer, propor uma moral: mas a razão disso não reside em ser ele pura especulação; muito pelo contrário, ele é, logo de entrada, e na sua própria espessura, um certo modo de ação. Para o pensamento moderno não há moral possível porque, desde o século XIX o pensamento já ‘saiu’ de si, do seu ser próprio, já não é teoria; desde que pensa, o pensamento fere ou reconcilia, aproxima ou afasta; não pode coibir-se de libertar e de subjugar. Antes mesmo de prescrever, de esboçar um futuro, de dizer o que cumpre fazer, antes mesmo de exortar ou apenas de alertar, o pensamento, ao nível da sua existência, desde a sua forma mais matinal, é em si uma ação – um acto perigoso.”p.427.PC Nietzsche, assim como Sade, Artaud e Bataille, conclui Foucault, o souberam muito bem.
É neste ponto que pretendemos nos deter. Como pensar este pensamento que de entrada é navalha ou afago, fogo ou brisa nordestina? Ou antes, quê pensamento é este?
Podemos então nos perguntar como conciliar estes dois movimentos antagônicos, de busca das origens, movimento em direção ao passado, e de um pensamento que, de entrada, é ação, produção de presente?
Como suportar e articular este duplo investimento: por um lado, do conhecer - que é sempre sobre algo distanciado – e do agir – que se encontra sempre na imanência da própria vida?
Tratar-se-ia de dois tipos de pensamento em um só pensador? Será isto possível?
Sabemos que as últimas pesquisas de Michel Foucault, bem como de Gilles Deleuze, circularam em torno dos problemas dos processos de subjetivação e de modos de existências.
Como pensar estas questões sem que o desassossego nos leve ao desespero? Como pensar essas questões como experiências do pensamento?
Sabemos que o conhecimento tornou-se nosso tesouro
A nosso ver, a importância em voltar o olhar para o passado não se encontra na veracidade dos fatos lá encontrados, mas no diferencial das diversas formas constituídas. É Nietzsche que nos diz logo no início na Genealogia da Moral: “Por fortuna logo aprendi a separar o preconceito teológico do moral, e não mais busquei a origem do mal por trás do mundo. Alguma educação histórica e filológica, juntamente com um inato senso seletivo em questões psicológicas, em breve transformou meu problema em outro: sob que condições o homem inventou para si os juízos de valor“bom”e “mau”? e que valor têm eles?”
Evidentemente que ao colocar questões como estas Nietzsche se coloca como homem do conhecimento.
A vontade de conhecimento, a busca da verdade, empreendida no Ocidente pelos grego, instituindo os parâmetros da civilização e da barbárie ocidental teve em Nietzsche o seu ponto de retorno, mordeu sua própria cauda. Ao mesmo tempo em que se debruça sobre o passado não consegue dissocia-lo de um ato do presente. Desde O Nascimento da Tragédia o pensamento que busca a verdade surge como sendo apenas um tipo de pensamento, representado pelo deus Apolo. Mas por detrás de Apolo, Dioniso dança e pensa de outro modo.
Se tudo se encontra no solo da história, se tudo é invenção, torção, força instituinte, cabe saber como se institui.
Como suportar e articular este duplo investimento: por um lado, do conhecer - que é sempre sobre algo distanciado – e do agir - na imanência da própria vida?
nietzschianas: Autopoieses e eterno retorno
Questão: o eterno retorno dos animais em Nietzsche representa uma visão biológica do filósofo alemão? Não creio.
Como diz Paul Veyne em um artigo sobre Michel Foucault, o leão não sabe que não sabe. Age conforme seus atributos. Essas idéias são as mesma em Nietzsche. Daí seu carinho pelos animais. Daí o animal saber, segundo Nietzsche, o que é o eterno retorno. Sabemos que o conceito de eterno retorno significa "agir conforme se é". Ora, os animais não sabem que não sabem, enquanto que o homem, após Sócrates, pensa que sabe que sabe, já que reflete. É esse distanciamento, essa dobra do sujeito sobre si (na verdade é a emergência histórica do sujeito) que, segundo Nietzsche, foi a maior mentira da história do cosmos: possuir uma consciência teórica, distanciada da vida, crítica da vida: "um dia, homens inteligente inventaram o conhecimento....".
Quando o homem chega a agir como um animal, institivamente, sem saber que não sabe, este novo homem, não seria o super-homem? No entanto, esse retorno ao institivo, amor fati, não seria um retorno a uma nova forma de animalidade, uma animalidade superior? Tal forma de animalidade não seria a construtora de novos valores, de novas formas de existência? Ela não seria afirmação de uma nova maneira de ser, um novo sentido de existência? Esse eterno retorno não seria a autopoieses de Maturana e Varela?
Como diz Paul Veyne em um artigo sobre Michel Foucault, o leão não sabe que não sabe. Age conforme seus atributos. Essas idéias são as mesma em Nietzsche. Daí seu carinho pelos animais. Daí o animal saber, segundo Nietzsche, o que é o eterno retorno. Sabemos que o conceito de eterno retorno significa "agir conforme se é". Ora, os animais não sabem que não sabem, enquanto que o homem, após Sócrates, pensa que sabe que sabe, já que reflete. É esse distanciamento, essa dobra do sujeito sobre si (na verdade é a emergência histórica do sujeito) que, segundo Nietzsche, foi a maior mentira da história do cosmos: possuir uma consciência teórica, distanciada da vida, crítica da vida: "um dia, homens inteligente inventaram o conhecimento....".
Quando o homem chega a agir como um animal, institivamente, sem saber que não sabe, este novo homem, não seria o super-homem? No entanto, esse retorno ao institivo, amor fati, não seria um retorno a uma nova forma de animalidade, uma animalidade superior? Tal forma de animalidade não seria a construtora de novos valores, de novas formas de existência? Ela não seria afirmação de uma nova maneira de ser, um novo sentido de existência? Esse eterno retorno não seria a autopoieses de Maturana e Varela?
Considerações nietzschianas
O que é uma filosofia dos valores, uma filosofia que se coloca para além do bem e do mal? O que é se colocar para além do bem e do mal? O que significa extra-moral? Zaratustra é um belo livro, mas também um homem quase santo. Ele ama os homens. Ele quer falar aos homens? O que ele quer falar aos homens? Que Deus morreu? Que o homem enfim pode ser um ser superior? Certamente. Mas ninguém o escuta. Sobra-lhe apenas um defunto. Por que Nietzsche se posiciona contra Darwin? Por que ele se posiciona contra a lei do mais forte? Por que Nietzsche, considerado um filósofo do poder, da guerra, se coloca contra Darwin? Não seria para eles se afinarem? Se Nietzsche não afirma as idéias de Darwin é simplesmente porque não concorda com elas e não concordar com elas é não concordar com a máxima da lei da sobrevivência dos mais fortes. É preciso proteger os mais fortes contra os mais fracos, disse Nietzsche. Por que?
Tais questões são deveras questões delicadas, complicadas, pois exigem talvez a arte da delicadeza, da sutileza, para percorrer seus balizamentos, suas aporias, para esquivar-se das inúmeras armadilhas: do santo, do sacerdote, do político, do bufão, do marginal, do louco.Há valores superiores? Nutrir um sentimento de ódio por alguém é superior a nutrir um sentimento de amor? Ou é o contrario? Nutrir um sentimento de amor é superior a um de ódio? Não serão ódio e amor sentimentos de aprisionados? Aprisionados no/pelo outro? Não existiria um para além do amor e ódio? Por que Nietzsche afirma que há ódio, muito ódio, no amor judaico/cristão? Trata-se segundo ele de um amor do lobo pelo cordeiro: quanto mais tenro, quanto mais mutilado, mais apetitoso, melhor. Não estaria aqui um dos mais nobre e mais belo segredos de Nietzsche, como o diz Deleuze, quando ele dá à irresponsabilidade seu sentido positivo? “Eu quis conquistar o sentimento de uma total irresponsabilidade, tornar-me independente dos elogios e da reprovação, do presente e do passado.[1] ” Mas apesar de tudo, Nietzsche nutre um grande sentimento de amor pela humanidade. Seria amor de águia, de lobo? Certamente que não. O amor, certamente é superior ao ódio. Este jamais deixa de ser uma reação, uma vingança. Não há criação com o ódio.
[1] Vontade de Potência, III, 383 3 465, Apud Deleuze, Nietzsche e a filosofia, p. 17.
Tais questões são deveras questões delicadas, complicadas, pois exigem talvez a arte da delicadeza, da sutileza, para percorrer seus balizamentos, suas aporias, para esquivar-se das inúmeras armadilhas: do santo, do sacerdote, do político, do bufão, do marginal, do louco.Há valores superiores? Nutrir um sentimento de ódio por alguém é superior a nutrir um sentimento de amor? Ou é o contrario? Nutrir um sentimento de amor é superior a um de ódio? Não serão ódio e amor sentimentos de aprisionados? Aprisionados no/pelo outro? Não existiria um para além do amor e ódio? Por que Nietzsche afirma que há ódio, muito ódio, no amor judaico/cristão? Trata-se segundo ele de um amor do lobo pelo cordeiro: quanto mais tenro, quanto mais mutilado, mais apetitoso, melhor. Não estaria aqui um dos mais nobre e mais belo segredos de Nietzsche, como o diz Deleuze, quando ele dá à irresponsabilidade seu sentido positivo? “Eu quis conquistar o sentimento de uma total irresponsabilidade, tornar-me independente dos elogios e da reprovação, do presente e do passado.[1] ” Mas apesar de tudo, Nietzsche nutre um grande sentimento de amor pela humanidade. Seria amor de águia, de lobo? Certamente que não. O amor, certamente é superior ao ódio. Este jamais deixa de ser uma reação, uma vingança. Não há criação com o ódio.
[1] Vontade de Potência, III, 383 3 465, Apud Deleuze, Nietzsche e a filosofia, p. 17.
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