terça-feira, 30 de setembro de 2008

Sobre a transdisciplinaridade

Caracterizamos nosso grupo de pesquisa como transdisciplinar. Para que não fiquemos somente na moda do nome, cabe aqui esclarecer o que entendemos por tal termo. Para tal, realizaremos um diálogo com a perspectiva de Basarab Nicolescu por considerá-la muito significativa e esclarecedora.
Segundo Basarab Nicolescu, uma Disciplina trata de um objeto específico de conhecimento. Já na Pluridisciplinaridade um objeto de pesquisa é estudado por várias disciplinas ou enfoques, ao mesmo tempo. A Interdisciplinaridade diz respeito a transferência de métodos ( e não de objeto) de uma disciplina à outra. Neste caso, ele distingue três graus de interdisciplinaridade: a) um grau de aplicação: quando um método de uma disciplina (física nuclear) é transferido para outra (medicina), produzindo novos efeitos(medicina nuclear); b) um grau epistemológico: quando um método de lógica formal é transferido para a área de Direito, gerando novas análises epistemológicas do Direito; c) um grau de geração de novas disciplinas: quando métodos matemáticos foram transferidos para a física geraram a física matemática. Por fim, a Transdisciplinaridade diz respeito ao que está, ao mesmo tempo, entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além de todas as disciplinas. Seu objetivo é a Compreensão do mundo presente, e um dos imperativos para isso é a unidade do conhecimento.
É evidente que desde a Grécia antiga o Ocidente foi constituindo campos específicos de conhecimento, tais como a filosofia, a física, a matemática, a lógica. Mas foi somente após o século XVII que houve uma melhor e maior demarcação e especialização dos campos científicos com a introdução do método experimental. Apesar de a natureza ser aparentemente una, o espírito científico moderno revelou uma multiplicidade de objetos de pesquisas, cada qual pertencendo a um mundo particular, exigindo uma metodologia específica de pesquisa, com resultados e aplicações também particulares. Essa perspectiva científica é hoje criticada dizendo-se que a ciência fragmentou a unidade, isto é, se vivemos em uma única realidade, se o universo é uno então falta integrar os saberes que se encontram dispersos. Tal é a perspectiva do pensamento holístico e o de Nicolescu.
Esta perspectiva, que muitos intitulam novo paradigma, supõe que os saberes são fragmentos de um único todo. Ela postula que é exatamente por ter desconsiderado que os saberes são partes de um único sistema que a terra-humanidade corre perigo, denunciando assim o esgotamento da perspectiva especialista fragmentária.
Não sendo possível descartar os saberes instituídos, concebe-se então a realidade como sendo composta por níveis. É assim que Nicolescu define uma Disciplina. Diz ele “A pesquisa disciplinar diz respeito, na melhor das hipóteses, a um único e mesmo nível de Realidade; além do mais, na maioria dos casos, refere-se a apenas um fragmento de um nível de Realidade.” É pensando assim que ele também define a Transdisciplinaridade como sendo “a dinâmica engendrada pela ação de diferentes níveis de Realidade ao mesmo tempo.” É evidente que o objetivo do autor é preencher as lacunas existentes entre os níveis e, neste caso, o estudo transdisciplinar complementaria o disciplinar. Esta lacuna entre níveis é o que ele denomina vácuo. Diz ele: “Na presença de vários níveis de Realidade, o espaço entre as disciplinas e além das disciplinas está cheio, assim como o vácuo quântico está cheio de possibilidades: da partícula quântica às galáxias, do quark aos elementos pesados, que condicionam o aparecimento da vida no universo. A estrutura descontínua dos níveis de Realidade determina a estrutura descontínua do espaço transdisciplinar, que por sua vez explica por que a pesquisa transdisciplinar é radicalmente distinta da pesquisa disciplinar, mesmo quando totalmente complementar.” É pensando assim que Nicolescu diz que o objetivo da pesquisa transdisciplinar é a compreensão do mundo presente. É neste sentido que a perspectiva de Nicolescu é holista.
Não considerando tal perspectiva como errada, pois tal conceito já foi há muito descartado do espírito científico, definimos a Transdisciplinaridade adotando uma postura teórica diferente. O ponto de partida é o mesmo, isto é, os diferentes “níveis” ou objetos de estudos das diversas disciplinas instituídas. Só que não se postula um todo por detrás das partes, o que não quer dizer que não haja todos e partes, e que vários problemas que hoje a humanidade se depara têm como causa esta fragmentação. Mas podemos pensar também na existência de objetos de pesquisa que se caracterizam por possuir uma natureza que transversaliza os campos disciplinares existentes. Tal seria, por exemplo, o campo da subjetividade. E não é o caso dizer que a neurologia, a biologia, a sociologia, a etnologia, a psicologia, podem fornecer elementos-partes que integrariam o todo. O que queremos afirmar é que a história homem-natureza pode fazer emergir novos objetos na natureza. A natureza neste caso não estaria desde sempre dada e completa, cabendo ao homem estudá-la separadamente é depois integrá-la. A natureza não nasce acabada. Dela e nela emerge novos seres, novos objetos, em conformidade com a história humana.
Na perspectiva transdisciplinar holista há uma visão relativista da natureza e, como sabemos, esta se sustenta na separação homem-natureza, separação inerente ao paradigma da ciência moderna. Queremos afirmar que não há necessidade de afirmarmos um todo, uma unidade metafísica transcendente, para enfrentarmos os problemas humanos deste final de século. Ë evidente que precisamos de uma visão para enfrentar os problemas, uma visão que integre os diferentes níveis de conhecimentos existentes, isto é, que levem em consideração os estudos pluri, inter e disciplinares. No entanto, devemos nos precaver dos exageros, ou melhor, desta característica do pensamento messiânico: de uma parte generalizar-se o todo, de uma idéia se transformar nA Idéia.
No nosso modo de pensar, a Transdisciplinaridade é um modo de pensar que possui objetos específicos de pesquisa. Talvez não seja abuso dizer que, paradoxalmente, trata-se de uma nova Disciplina. Ela não visaria integrar mas pesquisar objetos sem fronteiras, e é neste sentido que ela inclui a lógica do Terceiro Termo Incluso, a teoria da Complexidade e a teoria da Multiplicidade.
Sendo assim, concordamos em dois ponto com Nicolescu com relação aos três pilares da Transdisciplinaridade. Para ele trata-se de: níveis de Realidade, a lógica do Terceiro termo Incluso e da Complexidade. Para nós trata-se: da Multiplicidade de Mundos, a lógica do Terceiro Termo Incluso e da Complexidade.
Esta pequena diferença no que diz respeito ao primeiro ponto, condiciona mudanças de visão em cascata. No nosso caso, não se trata de dizer que a pesquisa transdisciplinar vai na direção de uma unidade do conhecimento, já que não há unidade metafísica a ser alcançada. Não devemos ter receio do diverso na sua diversidade. Se há algo que devemos ter receio é da extrapolação de um tipo de poder, do totalitarismo de uma idéia ou de um modo de produção. Creio que a perspectiva transdisciplinar tem como seu grande interlocutor-oponente não o campo dos saberes, mas o poder político, e mais especificamente o poder totalitário, seja ele regido pelo capital, tal como hoje nos encontramos com a ditadura da economia de mercado, ou por sistemas de pensamento fechados etc.

Ditos impertinentes

Freud viu muito bem que o inconsciente trabalha com metonímias ou metáforas. O que ele não viu, ou não teve coragem de dizer, é que esse inconsciente é o do homem ocidental escravo. O inconsciente metafórico é aquele que não pode dizer diretamente. Pior, os neuróticos, continuadores da Psicanálise, naturalizou a linguagem tornando-a naturalmente tropos, desvio, distanciamento do real.
Nietzsche viu bem melhor, ou melhor, teve mais coragem de afirmar que o pensamento tá assentado em um corpo que emite enunciados em função das suas forças.
Se o inconsciente é máquina, como o disseram Deleuze e Guattari, se ele não é representacional, é exatamente para afirmar que o inconsciente represenacional é já secundário, efeito da repressão e do medo.

Germe das políticas do pensamento

A modernidade, ao mesmo tempo que faz emergir os dois tipos de sujeito, sujeito epistêmico e sujeito da paixão, o submete a uma mesma ordem de pensamento: o pensamento científico. A critica de Nietzsche a ciência, seja ela qual for, situando-a como um modo de pensamento proveniente de um modo/estilo de vida e de existência, é o que, ao nosso ver, constitui a guinada da modernidade. O que caracteriza a modernidade é uma vontade de conhecer o sujeito a partir do próprio sujeito, sendo tal conhecimento querendo-se transcendente ao sujeito do conhecimento. Daí todas as aporias e contradições que encontramos no campo das ciências humanas.

FATORES PARA COMPREENDER O CORPO DO HOMEM A PARTIR DAS PESQUISAS DAS CIÊNCIAS HUMANAS

O CORPO do homem tem, no mínimo, 4 (quatro) DIMENSÕES, simultaneamente. DIMENSÃO BIOLÖGICA; SIMBÓLICA; PODER; SUBJETIVA.
O CORPO DO HOMEM é um CORPO-DEVIR.
Existem dois tipos de devires: um DEVIR INDIVIDUAL, ou história individual, caracterizado pelos processos que vão desde o ato da fecundação até a morte, corpo ontogenético; e um DEVIR COLETIVO, um corpo inserido na história da coletividade.
O DEVIR INDIVIDUAL possui, no mínimo, duas modalidades: devir individual subjetivo ou psicogênese, é um devir individual orgânico - somatogênese.
O DEVIR COLETIVO pode ser subdividido em três tipos de devires: DEVIR- BIOLOGICO, o corpo do homem inserido na história da espécie humana, o que o liga a vida sobre a terra; DEVIR-SIMBOLICO, o corpo inserido na história de uma determinada tradição cultural, de crenças, símbolos etc; DEVIR-PODER INSTITUCIONAL, onde o corpo se insere em uma história das relações de poder, de dominação, da história

OBS.Em cada momento de devir do corpo humano, de acordo com o desenvolvimento do seu corpo biológico, os comportamentos-processos de todas as ordens assumem feições específicas.
A DIMENSÃO BIOLÖGICA nos revela que o CORPO DO HOMEM é um SER VIVO,
.A DIMENSÃO SIMBÓLICA nos diz que o homem é um ser que usa meios simbólicos no seu relacionamento com a realidade e produz com eles: mitos, crenças, conhecimentos, sonhos, filosofia, arte, leis. Esta dimensão coloca o corpo do homem em relação a um sistema misto concreto/abstrato. A linguagem como todos nós sabemos é um sistema de signos formados pela união de um significado e de uma imagem, visual, acústica, tátil.
A DIMENSÃO PODER DO CORPO DO HOMEM diz respeito às relações de poder, de DOMINAÇÃO E PERMANENCIA DE DOMINAÇÃO de um corpo sobre outro, o que implica CONFLITO. A DIMENSÃO PODER é a exploração e tudo que se inventa para manter a exploração/dominação. É a dimensão da revolta, da luta, do sangue, da insatisfação. É a dimensão do assassinato. A DIMENSÃO PODER DO HOMEM é o que nele o torna dominante ou dominado. Trata-se da Dimensão da DOMINAÇÃO, do conflito, do exercício de poder. É a Dimensão do certo e do errado, do controle comportamental.
A DIMENSÃO SUBJETIVA DO CORPO DO HOMEM diz respeito à sua INDIVIDUALIZAÇÃO e SINGULARIDADE. A SUBJETIVIDADE é composta de IDEIAS, AFETOS e PERCEPTOS. Idéias, afetos e perceptos que podem ser de suas qualidades: REPETITIVAS e CRIATIVAS. A subjetividade é da ordem do invisível e não do privado.
Existem três tipos de Subjetividades que se cruzam na individualidade: subjetividade simbólica/mítica, “trata-se de um modo de pensar que parte do princípio de que, se não se compreende tudo, não se pode explicar coisa alguma.”[1] Subjetividade Poder Conflitual, onde pensa-se que existe um certo e um errado, um bem e um mal; Subjetividade Criadora, onde a verdade é o próprio ato de criar.
A característica principal da Dimensão Subjetiva singular é a CRIAÇÃO. As mudanças do Corpo do homem têm que passar por transformações subjetivas.
Todo homem possui um CORPO SINGULAR. Esta singularidade o coloca para além do biológico, do simbólico e do poder. O biológico o faz pertencer a mesma espécie; o simbólico o faz pertencer a humanidade; o poder faz pertencer a mesma rede de dominação. Já a subjetividade singular o coloca na DIFERENÇA.
As Subjetividades, simbólica e poder, são subjetividades herdadas, idéias, afetos e percepções repetitivos, idéias, afetos e percepções padronizados. Já a subjetividade criadora é o propriamente estilístico, é a DIFERENÇA AUTENTICA. É a subjetividade criadora de novas idéias, de novos afetos, de novas percepções.
Na Subjetividade herdada poder, há contradição entre o agir e o pensar: pensa-se de um modo e age-se de outro. Trata-se da forma política de ser. Ou então, falar por falar, falar sem ação.
[1] L. Strauss, Mito e Significado, Porto, Ed. Rès, p.31